segunda-feira, maio 15, 2006

Sonhos


Sonhos (Yume-1990), de Akira Kurosawa, é um filme raro no sentido de que consegue unir beleza e criticidade aguda (e explícita) em uma só obra. Beleza pura, do tipo que costuma dar um pouco mais de sentido à vida (claro que muito da bela fotografia tem a ver com o "saber contemplar" típico do povo japonês). Criticidade explícita porque não entra em joguinhos chatos do cinema "cult". A crítica é simplesmente jogada com palavras simples, muitas vezes saída da boca dos personagens (gente de carne e osso) em diálogos interessantíssimos. Nada de tentar parecer complexo ou cair em subliminarismos. "Estupidez humana" é uma expressão que se repete com sucesso e baseada em bons argumentos.
O filme é dividido em oito "sonhos", com mensagens de cunho universal. Basicamente, Kurosawa defende o lado que os homens costumam pisar, ignorar. Os sonhos envolvem a degradação do planeta, as guerras, o egoísmo, as ilusões materiais. Não, esses temas não são clichês neste filme. Gostei de todos os segmentos, mas destacaria alguns.
O primeiro, "A Raposa", é marcante e misterioso. Bastante teatral, dá ao espectador desde o começo a impressão de que o filme será memorável.
O segundo sonho é lindíssimo, chamado "O Jardim dos Pessegueiros" e impressionou-me de forma arrebatadora. Segue a linha do primeiro no que diz respeito à forma teatral de como tudo é encenado. Contém uma mensagem espetacular, mostrada de forma diferente, musical e com um figurino fantástico.
O sonho que envolve pinturas de Van Gogh é incrivelmente criativo, lembra cenas do filme Frida, no qual as pinturas se tornam reais, concretas. Encantador.
"O Demônio Chorão" é sensacional, um golpe na grande maioria das pessoas, que o tempo inteiro procuram algo que não existe e esquecem o que está ao seu redor. Este sonho mostra de forma "pesada" o que os homens estão plantando... E o que provavelmente colherão mais tarde. Um ogro que um dia foi humano se mostra arrependido, mas é tarde demais: a Terra está morrendo. A ganância cresce junto com os sonhos.
E o último, "Povoado dos Moinhos", muitíssimo sábio. Mas não basta ser inteligente para entender, é preciso bastante sensibilidade. Este é o meu preferido e me fez chorar. De felicidade. Mal acreditei quando vi. Não preciso mais pensar tanto em ser cineasta, pois Kurosawa passou de forma inacreditável a mensagem que sempre pensei em passar. Simples e direto.

"-As pessoas se acostumam com a conveniência. Acham a conveniência melhor. Jogam fora o que é realmente bom."

"-E a iluminação?
-Temos vela e óleo de linhaça.
-Mas a noite é tão escura!
-Sim, a noite tem de ser assim. Por que a noite deveria ser clara como o dia? Eu não gostaria de não conseguir ver as estrelas à noite."

"-Hoje em dia as pessoas esquecem que elas são só uma parte da natureza. Destróem a natureza, da qual nossa vida depende. Acham que sempre podem criar algo melhor. Sobretudo os estudiosos. Eles podem ser inteligentes, mas a maioria não entende o coração da natureza.
Eles só criam coisas que acabam deixando as pessoas infelizes. Mesmo assim, orgulham-se de suas invenções. E o que é pior, a maioria das pessoas também. Elas as vêem como milagres. Idolatram-nas."

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