GUEVARA E FIDEL ERAM REVOLUCIONÁRIOS
DORIVAL CAYMMI ERA REVOLUCIONÁRIO
OS ARTISTAS DA SEMANA DE ARTE DE 1922 FORAM REVOLUCIONÁRIOSOntem comecei a ler o novo livro que comprei, um livreto, chamado "Fidel - A estratégia política da vitória", fato que me fez retomar um pensamento induzido por aquela professora de filosofia, aquela de quem sempre falo: A melhor professora de filosofia que já conheci.
Quando tinha 13 anos de idade eu tinha o mesmo desejo absurdo de tantos jovens de sair do país, ter casas em várias nações da Europa e, para isso, ser rica. Chegava a enumerar e listar os nomes dos países de meu interesse. Queria morar em qualquer lugar, menos no Brasil. Com o tempo fui descobrindo as maravilhas do meu próprio país, da minha própria cidade - por conta própria. Começando pela vista da sacada do meu próprio prédio (meu antigo prédio), que por muito tempo eu não valorizei. Era tão linda e simples, e à medida que fui crescendo fui percebendo que ali eu tinha um tesouro e de que poderia ser feliz com coisas simples, sem o glamour *ilusório*de Londres ou Los Angeles.
O que a antes citada professora de filosofia dizia era: Todos saem para lugares que dizem mais "evoluídos". De "primeiro mundo". Porque lá tudo é melhor, são lugares bons de se viver. Mas em tais locais tudo já está pronto. Toda a evolução e grandiosidade, em todos os aspectos (culturais, educacionais, sociais, econômicos, políticos e artísticos), foram construídas pelos seus respectivos nativos. E a professora batia em outra tecla: muitos de nós nos sentimos inferiorizados perante as críticas dos nativos de tais países quando para lá nos mudamos. Mas o que eles criticam está certo: tantos brasileiros (no caso) mudam-se para lá, de mala e cuia, e esses em nada ajudaram na construção do país. Por que não ficam em seu próprio país e tentam mudar as coisas neste? A questão da imigração é bastante cômoda para quem recebe os "novos moradores". É sabido: a população local cresce, os problemas aparecem. E o pior: problemas trazidos por alheios.
Eu, até então, nunca havia parado para pensar nisto. Mas refleti bastante e, sendo impessoal, vi que é fato e não questão de opinião. É uma espécie de "egoísmo inconsciente". As pessoas querem fazer suas vidas, enraiza-las e ter seus filhos em lugares onde tudo já está maravilhoso, pois assim tudo é mais fácil. Vão embora e esquecem da miséria que presenciaram um dia em seu país, dando as costas e dizendo simplesmente "tchau, eu vou pr'uma melhor e vocês fiquem aí, nesse Brasil de merda".
Lutar em termos pessoais, dentro da nossa própria vida, já é difícil, imagina lutar em termos sociais. É verdade. Levamos muita coisa "com a barriga" e queremos o mais rápido e prático. Questão de sobrevivência do homem. Mas sendo menos animalescos e tentando ser mais humanos, por que não tentamos ser mais politizados ou mais ousados e questionadores, formadores de opiniões, influentes, de forma a tornar a práxis algo viável a favor da evolução de nosso próprio país e de nossa própria cidade? Por que fugir para onde tudo já está pronto? O que cada um de nós fazemos para melhorar nossa própria cidade (se é que fazemos algo)?

Lembro aqui que questões gerais estão envolvidas e não apenas a parte política (o que é diferente de politicagem barata). Questões que envolvem filosofia profunda e a práxis desta. Sociologia como instrumento de reforma, e por que não, uma pedagogia bem aplicada. A questão artística também é fundamental. O artista verdadeiramente revolucionário não sai de onde vive para buscar o padrão externo, revoluciona a partir do ponto onde se encontra. Esta é a verdadeira revolução. Se isto fosse aplicado à realidade, a arte não encontraria-se tão segmentada e concentrada em grandes metrópoles, e por consequência, cidades menores seriam mais auto-suficientes em sua arte e sua população valorizaria mais o que é de casa (por isso dizem: santo de casa não faz milagre - compramos muita arte externa e esquecemos o que é nosso).
O medo de ousar em cidades menores, no caso do Brasil, é generalizado, em todos os aspectos possíveis dentro de uma sociedade. Vê-se pela política, os bons e honestos raramente encaminham-se nesta carreira, porque já é implantada a mentalidade, no Brasil, de que "todo político é corrupto". E isso se aplica, em esferas diferentes, a todo tipo de trabalhador, artista ou cientista.
Nivandro Vale, cantor e compositor maranhense, enche os bons ludovicenses de orgulho ao dizer: "Vamos valorizar o que é nosso! Nós também sabemos fazer boa música". E considero o que Nivandro faz algo super inusitado, faz música alternativa no Maranhão, estado que já foi um dos grandes pólos da literatura nacional e que hoje em dia pouco lê os próprios escritores, que fizeram história. Isto é um exemplo literário, mas que pode-se aplicar à música ou à qualquer contexto. Há pouca valorização por parte do público ou população (e também do governo) e pouca audácia por parte dos artistas ou políticos ou cientistas, dependendo do aspecto analisado. Temos artistas muitíssimo completos, como João do Vale, mas que pouco são valorizados dentro de seu próprio estado. Artistas, políticos e cientistas em potencial temos o bastante, mas ousadia para fazer a arte e a ciência nascerem e brilharem neste chão... pouco há. A maioria precisa sair, ou sai por medo de arriscar aqui. O título de "pioneiro" ou de "talentoso" parece não competir com o medo de fracassar ou de sentir-se diferente do padrão.
Por tudo isso deve-se aplaudir atitudes como a de Nivandro Vale, que arriscou fazer sua arte aqui mesmo, e esta sim é a alma que espera-se de verdadeiros revolucionários. Porque fazer revolução onde tudo já encaminhado é muito fácil e muito vão.
A leitura de "Fidel - A estratégia política da vitória" fez-me pensar sobre o assunto pois muito admiro aquele bocado de cubanos, que nem pobres eram (no caso de Fidel Castro e Che Guevara) e tentarem implantar um sistema baseado no Marxismo e voltado para o nivelamento de classes. Tudo começou com o "Movimento 26 de Julho" e com cabeças pensantes e destemidas. Enfim, não buscaram a revolução fora, mas dentro de sua nação, buscaram revolucionar não só as próprias vidas (como tantos brasileiros fazem ao irem morar no exterior) mas revolucionar seu país e outras tantas vidas. Concordar ou não com o regime implatado por eles é outra coisa. Independentemente disso, é necessário admitir que houve total revolução. Na minha opinião, para melhor (com exceção de alguns aspectos).
Tom Jobim disse: "O Brasil não é para principiantes." Realmente, não é. Se você não tem ousadia vá embora, vá embora se não pode ajudar. Melhor do que ficar reclamando de pés para o alto, sem nada fazer para mudar o quadro do país.
Outra fase ótima de Antônio Carlos Brasileiro (ou seria de Vinicius de Moraes?) é a seguinte: "Lá é bom, mas é uma merda. Aqui é uma merda, mas é bom." Sobre os Estados Unidos da América.
A alma humana é terrivelmente insegura e medrosa. Não há espaço para rupturas bruscas, infelizmente. Então é mais fácil enveredar pelo caminho da covardia, como diria meu amigo e filósofo Fabio de Oliveira. O mais fácil é cortar laços, manter somente o essencial e imitar a ganância padronizada, a do querer sempre mais dinheiro. O mais fácil é tentar uma vida materialmente boa e ser objeto de manipulação para que os poucos realmente poderosos façam de você o que desejarem. O mais fácil é seguir a "receita de bolo". O que já está pronto. O mais fácil é usufruir. Vai-se para onde, então, possa-se usufruir do que foi erguido pelo suor de outros, pela ousadia de outros. Seja lá onde for.
Acredito que, na verdade, as pessoas, na falta de reflexão, no "egoísmo inconsciente", e principalmente em sua fraqueza e carência inata, buscam em novos lugares suprir o vazio da alma. Mais uma ilusão, das tantas.
"A grama do vizinho é sempre mais verde".
Para concluir, deixo aqui dois textos:
O primeiro é uma letra da banda brasileira Ludov, que fala do vazio da alma que tentamos suprir mudando de cidade, de país...
O segundo é de Cecília Meirelles, já postado anteriormente neste blog, que fala sobre valorizar o que temos e aprender a enxergar o belo que nos cerca e que muitas vezes a visão insensível e endurecida não nos permite ver.
Fugi desse País - Ludov
Se eu me perdi
Quando eu errei
Quando eu senti
Que quase estraguei
Toda a construção
Fugi desse país e fui buscar
Qualquer outro lugar
Pra tentar ser feliz
Deu vontade de voltar
Pra te dizer que as opções ainda estão aqui
Vou construir uma família como a gente quis
Quem tem menos faz bem mais que nós por si
Essa cidade não conhecerá meu fim
O que procuro encontrarei dentro de mim
Se eu me enganei não foi por mal
Andei na contra-mão
Daquilo que previ
De tudo que é normal
Fugi desse país e fui buscar
Qualquer outro lugar
Pra tentar ser feliz
Senti vontade de voltar
Pra te dizer que as opções ainda estão aqui
Vou construir uma família como a gente quis
Quem tem menos faz bem mais que nós por si
Essa cidade não conhecerá meu fim
O que procuro encontrarei dentro de mim
Vou construir uma família como a gente quis
Pra te dizer que as opções ainda estão aqui
Quem tem menos faz bem mais que nós por si
Essa cidade sempre foi nosso jardim
O que procuro já encontrei dentro de mim
A arte de ser feliz (Cecília Meirelles)
Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refelectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.