terça-feira, março 30, 2010

Manual Íntimo Para Te Esquecer

Vou ter que esquecer que você existe
Vou ter que esquecer que no mundo há você
E assim, tudo ficará mais triste
Com menos cor, com menos vida, com menos prazer

Terei que esquecer do teu perfume
E se alguém usá-lo perto de mim, fugirei
Não poderei ouvir o teu nome
Nem notícias da tua cidade saberei

Sim, para mim nem nasceste
Para mim tua imagem será embaçada
Não conseguirei lembrar do teu rosto
Tua lembrança será morta e passada

Pensa que faço por prazer?
Matar não é virtude do meu ser
Para mim é mais fácil esquecer meu nome
Do que não mais sentir o que sinto por você

Será doído e trabalhoso
Como achar agulha em palheiro
Como descosturar imensos tecidos
Desfiando... fio por fio

Ah, falta tua que abrange tudo
A falta do teu corpo no meu
Deixa um vazio absoluto
Mas se para ti nada sou...

(Muitos anos depois)
-Quem? Nunca ouvi falar...



Valéria Sotão

terça-feira, março 23, 2010

Perfeição

Ah, hipocrisia! Não suporto esses pseudo-intelectuais egocêntricos, esquisitos e  mentirosos. Os loucos até passam, mas esses de quem falo não são loucos, são conscientes.Leio cada bobagem na internet! Aí percebo quanta mediocridade em certas personalidades.

Hoje li por acaso um cara dizendo, e já tinha ouvido e visto muita gente falando essa bobagem, que a perfeição é um tédio. Para mim isso é apenas uma desculpa para não procurar melhorar.

Lembrei-me então de um texto bastante sincero e curto que escrevi há um tempo, depois de uma discussão sobre a perfeição em uma aula de filosofia:

O que há após a perfeição? Nada. E por isso a perfeição não deve ser alcançada? Não devemos procurar melhorar por medo de uma possível estagnação (no estado perfeito)?
Se algo é perfeito, não há estagnação no estar desse algo. Há um estado superior. Há estabilidade, mas num estado tão elevado, feliz, tão generoso, caridoso, inteligente e servil, que não há como virar tédio, virar rotina, algo ruim, medíocre. Seria contraditório à própria definição de perfeição. Se houver tédio, culpa, medo do "mesmo", logicamente esse algo já desceu novamente para a imperfeição.

sábado, março 20, 2010

A vida é excitante

"A vida é excitante, excetuando-se as decepções" - Valéria Sotão

Não acho tudo feliz nem tudo triste. E essa é a graça da vida. É o que dá profundidade às coisas. A incerteza sobre o futuro, em si, é triste e a certeza é sem graça. Então melhor ficarmos no meio termo.
Odeio meio-termos, mas em muitos casos eles são a melhor opção. Sem dizer que o equilíbrio é relaxante. Sempre queremos chegar lá. Harmonia, paz. Não confundir, por favor, com mediocridade e frieza. Não. Sou intensa até no meio-termo. Assim como somos na extremidades, e isso é tão banal. Difícil é sentir o prazer do equilíbrio. Poucos o conseguem.


Onde me encontro

Um poema meu.

Onde me encontro (Para M.)

O mundo todo anda perdido
Quase que implorando
Um grande e real sentido
Para tudo isto

Eu ando perdida
Mas sei como me encontrar
Encontro-me no teu corpo
Acho-me no teu lugar

Quando o cheiro teu
Fatal, penetra meus sentidos
Adentra minha alma
Aguça meus sentidos

Quero mostra-te esse grande sentido
Tão real que poderia ser eterno
Tão quente que a nós poderia aquecer
Profundamente...


Valéria Sotão.

sexta-feira, março 05, 2010

Carpinejar

Porque ele foi a melhor coisa que apareceu na Literatura Brasileira nos últimos tempos. Vou compartilhar com vocês:

As cartas de amor
deveriam ser fechadas
com a língua;
Beijadas antes de enviadas.
Sopradas. Respiradas.
O esforço do pulmão
capturado pelo envelope,
a letra tremendo
como uma pálpebra.
Não a cola isenta, neutra,
Mas a espuma, a gentileza,
a gripe, o contágio.
Porque a saliva
acalma um machucado.

As cartas de amor
deveriam ser abertas
com os dentes.

Fabricio Carpinejar
(Como no céu)