domingo, junho 26, 2011

Pois nem a fotografia

Sou uma sentimental boba. Uma apegada. Apego-me aos meus livros, aos meus cds, às minhas coisas. Tenho memória sensorial, memória olfativa... Lembro de como era tatear certos brinquedos na infância. A textura deles, o cheiro de playmobil novo, caixinhas metálicas. Não sei que tipo de afetividade é essa, mas acho que é a própria. São coisas minhas, reflexo de quem eu era, quem eu sou... De um mundo que eu mesma construía e onde nada me fazia mal. 
Acredito que o único apego que realmente dói é o apego a seres humanos. Laços são necessários, mas também precisamos saber desatá-los. E este é um exercício que exige muita disciplina e noção de honra e dignidade... mas o assunto aqui é outro.
Estava pensando por esses dias nas fotografias. Os momentos não devem ser queimados, rasgados, não devemos descontar nossa frustração nas nossas fotos, retratos de nossos instantes. Hoje em dia, são basicamente virtuais. Eu preferia revelar, aquela emoção da espera de ver como ficou. Na rede surreal que é a internet, tudo se perderá muito mais facilmente. Ou as fotos ficarão expostas eternamente e ninguém saberá quem são aqueles rostos sorridentes posando para o "Xiiiiis". Não terão valor sentimental. Serão fotos de 50 anos atrás, ou dois séculos. Flutuando na onda eterna dos bytes. Desse Matrix onde todo mundo se gosta mas ninguém é amigo de ninguém.
Já as fotografias reais, aquelas que são supostamente eternizadas no papel, essas são motivo de preocupação infinita para as pessoas apegadas, sentimentais, românticas. Pois os momentos, independentemente de com quem foram vividos, compartilhados, são válidos de serem lembrados. São nossos, nessa linha ilusória do tempo, são nossa vida, a risada que demos entre milhões de outras risadas e que nem lembraríamos se não fosse a mágica da fotografia. Como nossa memória é esquecida, seletiva, retardada ou sei lá o quê, e  nosso coração fica velho e rabugento, indiferente, só as fotos ou os escritos, os diários, os relatos, são o que nos farão lembrar. Sentir. Pensar. Relembrar é sim viver e não significa estar preso ao passado, porque a ideia de  passado é uma ilusão (provada pela Física) e se assim pensarmos, não viveríamos futuro nem presente pois todos serão, em um rápido segundo, pretérito.


Fico imaginando quantas fotografias serão perdidas, e quantas já foram. Para onde vão? Há mais de 1 século o homem tira fotos de seus momentos, dos momentos alheios, das paisagens (essas ficarão, mas se modificarão...), de animais, plantas, objetos. Mas o que fere é perder tantos rostos que pensavam estar sendo registrados. Coisa nenhuma! Quem guardará nossas fotos, depois dos nossos netos? As imagens vão se perdendo de geração para geração, por descuido, desinteresse, incêndios, desencontros... Quantas Marias e Josés eu deixei de ver, de conhecer, de poder apreciar um olhar, pois suas fotografias foram simplesmente perdidas, rasgadas, demolidas pelo tempo... Parece loucura, mas eu tenho um afeto profundo por todas as gerações que precedem as nossas, que estão vivendo no aqui e agora. Tenho pena e me pergunto: Por que Virginia Woolf tem seu rosto lembrado tanto tempo depois? E Napoleão? Quantos anônimos de coração profundo e mente honesta foram esquecidos para todo o sempre na poeira estelar? Quantas fotos de casais apaixonados, pais e filhos, famílias reunidas? Quanta gente interessante não viu sequer uma lente de fotografia em suas respectivas épocas e não foram sequer feitas pintura? Aqui deixo minha prece e minha curiosidade por todos. Por todos aqueles que não tiveram e que não terão a oportunidade de serem lembrados. Para onde foram, para onde irão?
(Valéria Sotão, 27/06/2011)


sexta-feira, maio 13, 2011

Rir de Tudo é Desespero

Vivemos na era do exibicionismo virtual. Hoje discutíamos na faculdade o fato de estarmos sempre atuando, representando algum papel. Diferentemente do ponto de vista do professor, penso que podemos ser nós mesmos quando estamos no trabalho, conversando com alguém, etc. Nosso "eu" não é limitado, é vasto. Não estamos necessariamente representando o tempo inteiro. Mas em vários momentos, sim. No virtual (no sentido de Pierre Lévy) que é a internet, esse representar torna-se agudo. O exibicionismo é intenso.

Para os tímidos, a internet é apenas um meio em que é mais fácil se expressar. Para outros, mostrar seus ganhos e seus méritos, sua quantidade de "amigos" virtuais, suas baladas e vida agitada é a função da internet: as redes virtuais são apenas questão de "status".

Alguns criticam a banalização da internet exclamando: "Maldita inclusão digital!". Acho de um elitismo ignorante, nojento. A internet é uma das poucas coisas que podemos realmente chamar de um bem "público". Na Constituição Federal diz-se que todo brasileiro tem direito à moradia, por exemplo. Não se tem. Mas em algumas cidades já há postos públicos para o uso da internet. Parece-me um bem melhor distribuído e em que todos podem ter voz. Mas liberdade de expressão não alimenta ninguém. "Freedom of speech won't feed my children(*)". Eu defendo completamente essa liberdade. No entanto e infelizmente, o bom senso não está incluído no pacote.

Ultimamente o que tem me chamado atenção é a onda de pseudo-comediantes, aqueles de humor negro ou "policamente incorreto" ou de críticos-de-tudo que tem aparecido constantemente na internet. Há coisa mais pretensiosa do que fazer um video de si mesmo comentando sobre qualquer assunto e postar na rede, no YouTube? O que faz de sua opinião tão importante, sobre fatos muitas vezes irrelevantes, a ponto de precisar ser filmada? Claro que há um negócio por trás disso, quanto mais vezes o video é assistido, mais dinheiro o dono dele ganha. Mas imagine se todo mundo resolver se filmar para dar opiniões muitas vezes sem embasamento, no puro achismo? Todo mundo quer seus dez minutos, inúteis, de fama.

O tal do Rafinha Bastos é um dos mais pretensiosos. Surgiu na TV mas "bomba" também na web. Foi eleito o homem mais influente do mundo no Twitter. Qual a relevância disso? Para ele, toda. Em recente entrevista à Rolling Stone Brasil, Rafinha admite sua arrogância e fala o tempo todo como se fosse um gênio que foi descoberto tardiamente. Considera-se, aparentemente, o cúmulo do subversismo, fazendo piadas sobre estupros, pedofilia, etc. Imagino se um filho dele fosse vítima de pedofilia, que piada faria o Bastos?

Certas coisas simplesmente não tem graça, ou tem graça somente quando inseridas em um contexto muito bem tateado. Tato falta em Rafinha Bastos, que por se achar subversivo ao extremo, acaba por tocar em feridas de quem já foi ferido por tais situações. Nem tudo que é tabu é questão de hipocrisia. Aliás, nada mais é tabu, tudo hoje é falado e discutido. Fazer piada com essas coisas nem sempre leva à discussões que trarão mudanças; na verdade, quase nunca. O brasileiro parece se divertir com a corrupção dos políticos, com a "negrada" favelada e "farofeira". E nisso enriquecemos comediantes que tiram sarro da nossa cara, o que nem sempre é necessário ou coerente. Tudo é motivo para rir e só. Anestesia e ópio eternos.

                                                                                                              

*Título de música da banda Manic Street Preachers
Texto originalmente publicado em www.outroladodanoticia.net por Valéria Sotão

sexta-feira, abril 08, 2011

Prazo de Validade e Conservação

O amor vem para que, por instantes, possamos sair de nossa própria imperfeição. É um lapso do perfeito, curto e sempre mal conservado. Sempre sem manutenção. (Valéria Sotão)

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Persiste...

E o teu gosto permanece em mim.
Na minha lembrança, na memória,
Em minha língua, em meu corpo...
Como é persistente o teu gosto!

E tua risada engraçada ecoa
Persiste em me fazer sentir:
Ternura, ternura que dura!
E que não me deixa esquecer de ti...


Valéria Sotão