Em uma das minhas aulas de filosofia, sempre muito produtivas, a professora citou o caso de uma mulher que entrou em profunda depressão por causa de sua idade. Segundo a própria, ela não tinha mais "função" nenhuma neste mundo, seus filhos estavam educados e morando sozinhos, ela estava separada, tinha um emprego humilde e poucas atividades. Mas reflitamos: Como essa mulher se enxerga? A resposta é fácil... ela se enxerga como um objeto, algo que precisa ter uma utilidade "pública", caso contrário, é preferível a morte.
Não é necessário irmos muito longe. Nós costumamos nos ver dessa maneira muitas vezes. Costumamos nos sentir bem apenas quando outra pessoa dá o braço a torcer por algo que venha de dentro do nosso "eu". Porém, o "eu" é muito mais auto-sustentável do que parece. Não estou aqui pregando o individualismo, pelo contrário. Mas temos que gostar do lado humano da pessoa, sabendo separar sua "função" dentro de uma sociedade, a qual eu preferiria chamar de colaboração, da sua singularidade dentro do que podemos chamar de "raça humana". Odeio a frase "eu preciso de você". Está aí algo que nunca quero escutar de ninguém querido. Precisar não é gostar. Depender não é amor. Pensem sobre isso. Pior é que muita gente se sente o máximo quando escuta o suposto "elogio". Muitos se aproximam dos outros pela utilidade que a nova pessoa terá na sua vida. Não importa o quê, mas vários indivíduos se aproximam dos outros com segundas intenções. Pelo dinheiro, pelo corpo, pela beleza, pela necessidade (nem sempre real) de ter alguém perto (mesmo que não haja real afeição).

A maior prova disso é o tratamento que muitos de nós dá aos idosos. Jogamos tudo que consideramos velho no lixo. O velho namorado, a velha cidade, o velho disco, a velha doméstica. Como se o velho fosse necessariamente ruim. Ao contrário do que dizem por aí, as pessoas não tem medo de mudar. E nem devem. Mas o que não deve acontecer é a troca de valores constante, sem mais nem por quê. O ser "humano", hoje em dia, só vive da novidade. Não sabe valorizar o que está ao seu redor, dizem enjoar, cansar. A magia da vida está em ver tudo como se fosse a primeira vez. Mesmo sendo a milésima.
Cuidemos dos nossos vovôs e vovós com todo o amor e carinho. E tratemos bem qualquer pessoa de mais idade. Eles são muito mais experientes, acreditem, e merecem nosso respeito. Os idosos não são inválidos. Esse termo é ridículo e mostra como a humanidade está presa à idéia de emprego, de prestamento de serviço a um sistema corrupto e devastador. Ou estamos muito preso aos outros. E devemos nos gostar (quando possível) e nos respeitarmos mutuamente, mas sem dependência por utilidades oportunistas. Não importa o que você seja. Escritor, pedreiro, cineasta, dentista. Não importa. Não é sua profissão que vai validar você. É o seu "eu".
Descobri a frase da minha vida numa música da Parafusa: "Pode crer, meu amor, eu consigo achar graça no feijão e arroz". Tem tudo a ver com esse post. Sim... Eu consigo ver graça no velho feijão com arroz.


