domingo, julho 23, 2006

Qual a sua utilidade?

A coisificação do ser humano

Em uma das minhas aulas de filosofia, sempre muito produtivas, a professora citou o caso de uma mulher que entrou em profunda depressão por causa de sua idade. Segundo a própria, ela não tinha mais "função" nenhuma neste mundo, seus filhos estavam educados e morando sozinhos, ela estava separada, tinha um emprego humilde e poucas atividades. Mas reflitamos: Como essa mulher se enxerga? A resposta é fácil... ela se enxerga como um objeto, algo que precisa ter uma utilidade "pública", caso contrário, é preferível a morte.
Não é necessário irmos muito longe. Nós costumamos nos ver dessa maneira muitas vezes. Costumamos nos sentir bem apenas quando outra pessoa dá o braço a torcer por algo que venha de dentro do nosso "eu". Porém, o "eu" é muito mais auto-sustentável do que parece. Não estou aqui pregando o individualismo, pelo contrário. Mas temos que gostar do lado humano da pessoa, sabendo separar sua "função" dentro de uma sociedade, a qual eu preferiria chamar de colaboração, da sua singularidade dentro do que podemos chamar de "raça humana". Odeio a frase "eu preciso de você". Está aí algo que nunca quero escutar de ninguém querido. Precisar não é gostar. Depender não é amor. Pensem sobre isso. Pior é que muita gente se sente o máximo quando escuta o suposto "elogio". Muitos se aproximam dos outros pela utilidade que a nova pessoa terá na sua vida. Não importa o quê, mas vários indivíduos se aproximam dos outros com segundas intenções. Pelo dinheiro, pelo corpo, pela beleza, pela necessidade (nem sempre real) de ter alguém perto (mesmo que não haja real afeição).





A maior prova disso é o tratamento que muitos de nós dá aos idosos. Jogamos tudo que consideramos velho no lixo. O velho namorado, a velha cidade, o velho disco, a velha doméstica. Como se o velho fosse necessariamente ruim. Ao contrário do que dizem por aí, as pessoas não tem medo de mudar. E nem devem. Mas o que não deve acontecer é a troca de valores constante, sem mais nem por quê. O ser "humano", hoje em dia, só vive da novidade. Não sabe valorizar o que está ao seu redor, dizem enjoar, cansar. A magia da vida está em ver tudo como se fosse a primeira vez. Mesmo sendo a milésima.

Cuidemos dos nossos vovôs e vovós com todo o amor e carinho. E tratemos bem qualquer pessoa de mais idade. Eles são muito mais experientes, acreditem, e merecem nosso respeito. Os idosos não são inválidos. Esse termo é ridículo e mostra como a humanidade está presa à idéia de emprego, de prestamento de serviço a um sistema corrupto e devastador. Ou estamos muito preso aos outros. E devemos nos gostar (quando possível) e nos respeitarmos mutuamente, mas sem dependência por utilidades oportunistas. Não importa o que você seja. Escritor, pedreiro, cineasta, dentista. Não importa. Não é sua profissão que vai validar você. É o seu "eu".

Descobri a frase da minha vida numa música da Parafusa: "Pode crer, meu amor, eu consigo achar graça no feijão e arroz". Tem tudo a ver com esse post. Sim... Eu consigo ver graça no velho feijão com arroz.


sábado, julho 22, 2006

Lar, doce lar



Essa é a vista da sacada do meu apartamento, tirada através do vidro da janela do meu quarto. Meu bairro fica meio longe do centro da cidade, é um bairro relativamente calmo e aconchegante. Vejo essa vista há muito tempo e nunca me canso. É simples, mas eu gosto. A mata antes era maior, já diminuiu bastante. Gosto do fim da tarde, quando o céu fica multi-color. Gosto de ver os pássaros voando e o movimento das nuvens, bem lento. Gosto de ver o vigia lá embaixo e as pessoas voltando do trabalho. De ver casinhas ao longe. E de me embalar na rede, na sacada.

quarta-feira, julho 19, 2006

Aberdeen

Pessoal, comecei a escrever algo ontem. Vou colocar um trecho aqui e quero saber o que acham. Não pretendo publicar por aqui não, só quero saber se está legal, certo?
Espero que percebam a crítica inserida nele e que entendam meu alvo (apesar de isso ser só o começo)

"Ano 2025. Aberdeen checa a caixa de entrada. Não acredita. Checa novamente e expele lágrimas de ódio. Um semi-grito ecoa pela sala cheia de livros antigos e com cheiro de ar-condicionado. Aberdeen coleciona tanto os clássicos quanto os mais contemporâneos. Muitas livrarias e gráficas estavam fechando e ela aproveitava os últimos exemplares mundiais antes da extinção completa desses amontoados de coisas escritas sobre qualquer assunto, em ordem aleatória ou não, mas organizadas em páginas numeradas e coladas a uma capa dura que as juntavam, formando então... um livro.
Uma nova era cultural nascia, a era E. E-mail, E-books, E-kisses, E-food, E-etc. Os livros entravam em extinção não por causa da falta de papel e muito menos por motivos ecologicamente corretos. Sobreviviam ainda algumas matas e reservas onde faziam reflorestamento contínuo, visando o lucro constante através de folhas brancas. O motivo da lenta morte era mesmo a falta de leitores. O comodismo havia tomado completamente os chamados seres humanos, que preferiam ler ao computador; sem ter que estender os braços, sem ter o árduo trabalho de virar folhas, sem ter que ir até uma livraria e, principalmente,
sem ter que gastar dinheiro.
Aberdeen havia escrito um E-book bastante trabalhoso, com mais de 300 páginas de Microsoft Word e agora um E-charlatão qualquer estava assumindo suas palavras. Tão profundas. Tão pessoais. Como alguém poderia ter escrito isso além de mim? Como posso perder subitamente meus direitos autorais?
Um golpe. Provavelmente de um hacker. Sem mais nem menos os originais sumiram de seus arquivos e foram publicados muito antes do planejado. Para completar, com a assinatura de outra pessoa. Uma tal de Mashee Clubey.
Aberdeen manda um pedido virtual para o Mc'Donalds mais próximo e dentro de cinco minutos ela está robotica e compulsivamente pondo batatas fritas em sua boca, num acesso de desespero mortal. Lanche tamanho GG, coca-cola como um vício, mastigar para evitar violências
maiores. Mastigar com força e raiva. De repente, ela percebe sua insanidade e vê algo de poético em tudo isso. E ao ver poesia no caos ela pensa: "Estou na fronteira entre a lucidez e a loucura."

terça-feira, julho 18, 2006

Dona Neusa Sá


A morte não é feia. Nem bonita. É natural, apenas. E mesmo quando natural, triste. Triste para nós que pouco a entendemos.
Só quero registrar neste meu caderno virtual a passagem de uma pessoa muito querida para outro plano. Para um plano de paz, a devida paz merecida por alguém que ajudou tanto aos outros de coração. Minha querida bisavó, Neusa.

Já era anjo na terra. Agora só criou asas.

segunda-feira, julho 10, 2006

Sobre mim

NÃO vejo as pessoas como "coisas" que podem me servir. Gosto de todos até que eu tenha um bom motivo para o contrário. Sou eu mesma sempre, sem falsos sorrisos, sem rodeios, sem imagens. Sou séria só por fora, mas levo muitas coisas à sério realmente, porque nem tudo pode ser levado apenas na brincadeira. Acredito que talvez só tenhamos uma vida e assim sendo, quero aproveitar (e aproveito) cada minuto e dia da forma mais saudável para mim e que não seja injusta para os outros.
Minha sinceridade incomoda, nunca consigo ficar calada quando acho algo injusto (obviamente, posso estar errada). Normalmente falo pouco pois sou introspectiva, perco-me em meus divertidos pensamentos. Pensar é demasiado necessário e muito mais coerente do que apenas sentir. Pensar NÃO enlouquece, como muitos dizem. Na verdade, pensar cura. Ter tempo ocioso é fundamental para tais reflexões. Assim você se acha, como eu tenho me achado. Quando você está bem consigo mesmo dificilmente se sente sozinho.
Sou uma metamorfose ambulante, porém um pouco diferente do Raul Seixas. Mudanças são naturais, nunca somos exatamente os mesmos, mas por outro lado, carregamos algumas coisas (positivas ou não) dentro de nós desde que nascemos até o momento da nossa morte. É o que se chama de essência. Eu sei, mais ou menos, qual é a minha. Digo isso porque já passei por diversas fases, interiores e exteriores. Minha infância foi feliz, brinquei até dizer chega. Brincava todos os dias. Via muitos desenhos animados e desde cedo gostava de ler. Também adorava desenhar. Depois fui patricinha, metaleira(pura influência), depressiva (hormônios), rebelde, romântica, punk... Rótulos típicos da adolescência. Mas tudo me deu um pouco de experiência. Não, não sou maria-vai-com-as-outras, mas eu queria me achar pelos olhos alheios, o que é muito errôneo. Hoje em dia escuto Bob Marley e escuto Beethoven. Escuto Placebo e Chico Buarque. Visto-me de qualquer jeito e sou feliz assim.
Adoro jornalismo, estar informada sobre tudo (desde artes até ciências), adoro ler. Até do pior livro posso extrair algo bom, mesmo que depois eu critique muito (costumo achar os gênios medíocres). Não tenho ídolos, ninguém é melhor que ninguém.
Adoro cinema mas tomo cuidado para que isso não se torne um vício, porque é uma das melhores invenções humanas, depois da música, é claro :) Música é minha maior paixão, artisticamente falando, fervorosa!
Amo minha família incondicionalmente. Tenho poucos amigos porque não posso dar devida atenção para todos igualmente e para mim relacionamentos precisam de atenção e companheirismo. Assim sendo prefiro ter poucos mas com qualidade.
Depois de uma espécie de namoro com o luxo e com grandes ambições (FRAQUEZA humana), tive a sorte de perceber as ilusões materiais e hoje em dia clamo por uma vida simples. A vida para mim está no presente e consiste em valorizar tudo de bom que nos é apresentado, conciliando tudo isso com responsabilidade.
O amor, para mim, só é verdadeiro quando altruísta e nada tem a ver com apego ou dependência.
Acho que deu para resumir um pouco do que sou.

sexta-feira, julho 07, 2006

Viva a Vida

Oiii! Saudade de todos!


Hoje é o aniversário da minha mãe. A pessoa que mais amo no mundo! 54 anos. Só queria deixar registrado o quanto esse mais um ano de vida é importante para mim, para ela, para o mundo, que fica mais lindo ainda com a presença de Regina Célia Sotão Ferreira.







Por outro lado, minha bisavó continua na UTI. Hoje eu fui visitá-la. Ela já não tava muito lúcida antes, agora muito menos. Mas obviamente, ela sente as coisas. Mexi no cabelo dela, falei um pouco... Troquei as meias. É uma situação muito chata, claro. Ela é uma pessoa incrível. Era toda cheia de vida. Tem 92 anos e já está internada há 2 semanas... Se fosse outra pessoa, já não teria resistido tanto tempo, ainda mais na UTI, e com essa idade.
Eu já havia a visitado, mas não ainda na UTI (quando a visitei, ela ainda estava no quarto). É uma experiência bem forte e claro, nada agradável. Não estou falando isso aqui para fazer drama. Doenças e morte fazem parte da vida, eu estou preparada para qualquer coisa, mas no fundo tenho muita esperança de que ela consiga sair dessa, pois é muito amada por todos nós. Pro meu pai então, é uma segunda (ou primeira) mãe.

Nessas horas tenho mais certeza ainda de que a vida vale a pena. Se não valesse, ninguém lutaria tanto por ela. Todos (ou quase todos) querem viver. Lutam por isso. A vida é boa e não, não duvido disso. Mas é vendo assim, a morte tão de perto, que valorizamos ainda mais o fato de estarmos vivos.

Vi muita coisa triste no hospital. Do lado da minha avó tinha uma menina de uns 13, 14 anos. Imagina, uma menina tão nova na UTI! Ela gritava de dor. Insuficiência renal, fiquei sabendo. A perna dela estava terrível. Fiquei com muita vontade de conversar com ela... Olhei nos olhos da garota, mas fui incapaz de trocar palavras, fiquei com medo de ela pensar que eu estava com pena dela, quando na verdade eu só queria mostrar alguma solidariedade. Alguns pacientes, infelizmente, ficam sentindo pena de si mesmos, e acham que todos sentem o mesmo por eles. Ou tornam-se rebeldes... É muito difícil. Mas da próxima vez tento puxar papo. Com certeza, se essa garota sobreviver (e creio que sim!) ela irá aproveitar cada minuto de sua vida.

Temos que agradecer (se não confiam em Deus, agradeçam ao acaso, à natureza, a qualquer coisa) por estarmos vivos. Não esperem estarem à beira da morte para valorizar a vida. Eu imploro isso a vocês.

segunda-feira, julho 03, 2006

Better, Beta, Bethânia


Todo mundo sabe que a Maria Bethânia é irmã do Caetano. Que dupla, hein? A mãe deles deve ser muito orgulhosa :)
Continuando o assunto Caetano Veloso, hoje escolhi postar outra letra da qual gosto bastante. O nome da música é Maria Bethânia e foi escrita na língua inglesa (como outras - poucas- de Caetano). Acredito que essa música tenha sido escrita durante a ditadura militar, quando Caetano foi exilado (que absurdo) pois contestava o sistema ditatorial em suas canções.
Reparem na criatividade com a qual ele joga as palavras, novamente. Esse cara é muito bom. E a melodia dispensa comentários.

Everybody knows that our cities were built to be destroyed
You get annoyed, you buy a flat, you hide behind the mat
But I know she was born to do everything wrong whith all of that

Maria Bethânia, please send me a letter
I wish to know things are getting better
Better, better, Beta, Beta, Bethânia
Please send me a letter
I wish to know things are getting better

She has given her soul to the devil but the devil gave his soul to God
Before the flood, after the blood, before you can see
She has given her soul to the devil and bought a flat by the sea

Maria Bethânia, please send me a letter
I wish to know things are getting better
Better, better, Beta, Beta, Bethânia
Please send me a letter I wish to know things are getting better

Everybody knows that it’s so hard to dig and get to the root
You eat the fruit, you go ahead, you wake up on your bed
But I love her face ‘cause it has nothing to do with all I said