Sou uma sentimental boba. Uma apegada. Apego-me aos meus livros, aos meus cds, às minhas coisas. Tenho memória sensorial, memória olfativa... Lembro de como era tatear certos brinquedos na infância. A textura deles, o cheiro de playmobil novo, caixinhas metálicas. Não sei que tipo de afetividade é essa, mas acho que é a própria. São coisas minhas, reflexo de quem eu era, quem eu sou... De um mundo que eu mesma construía e onde nada me fazia mal.
Acredito que o único apego que realmente dói é o apego a seres humanos. Laços são necessários, mas também precisamos saber desatá-los. E este é um exercício que exige muita disciplina e noção de honra e dignidade... mas o assunto aqui é outro.
Estava pensando por esses dias nas fotografias. Os momentos não devem ser queimados, rasgados, não devemos descontar nossa frustração nas nossas fotos, retratos de nossos instantes. Hoje em dia, são basicamente virtuais. Eu preferia revelar, aquela emoção da espera de ver como ficou. Na rede surreal que é a internet, tudo se perderá muito mais facilmente. Ou as fotos ficarão expostas eternamente e ninguém saberá quem são aqueles rostos sorridentes posando para o "Xiiiiis". Não terão valor sentimental. Serão fotos de 50 anos atrás, ou dois séculos. Flutuando na onda eterna dos bytes. Desse Matrix onde todo mundo se gosta mas ninguém é amigo de ninguém.
Já as fotografias reais, aquelas que são supostamente eternizadas no papel, essas são motivo de preocupação infinita para as pessoas apegadas, sentimentais, românticas. Pois os momentos, independentemente de com quem foram vividos, compartilhados, são válidos de serem lembrados. São nossos, nessa linha ilusória do tempo, são nossa vida, a risada que demos entre milhões de outras risadas e que nem lembraríamos se não fosse a mágica da fotografia. Como nossa memória é esquecida, seletiva, retardada ou sei lá o quê, e nosso coração fica velho e rabugento, indiferente, só as fotos ou os escritos, os diários, os relatos, são o que nos farão lembrar. Sentir. Pensar. Relembrar é sim viver e não significa estar preso ao passado, porque a ideia de passado é uma ilusão (provada pela Física) e se assim pensarmos, não viveríamos futuro nem presente pois todos serão, em um rápido segundo, pretérito.
Fico imaginando quantas fotografias serão perdidas, e quantas já foram. Para onde vão? Há mais de 1 século o homem tira fotos de seus momentos, dos momentos alheios, das paisagens (essas ficarão, mas se modificarão...), de animais, plantas, objetos. Mas o que fere é perder tantos rostos que pensavam estar sendo registrados. Coisa nenhuma! Quem guardará nossas fotos, depois dos nossos netos? As imagens vão se perdendo de geração para geração, por descuido, desinteresse, incêndios, desencontros... Quantas Marias e Josés eu deixei de ver, de conhecer, de poder apreciar um olhar, pois suas fotografias foram simplesmente perdidas, rasgadas, demolidas pelo tempo... Parece loucura, mas eu tenho um afeto profundo por todas as gerações que precedem as nossas, que estão vivendo no aqui e agora. Tenho pena e me pergunto: Por que Virginia Woolf tem seu rosto lembrado tanto tempo depois? E Napoleão? Quantos anônimos de coração profundo e mente honesta foram esquecidos para todo o sempre na poeira estelar? Quantas fotos de casais apaixonados, pais e filhos, famílias reunidas? Quanta gente interessante não viu sequer uma lente de fotografia em suas respectivas épocas e não foram sequer feitas pintura? Aqui deixo minha prece e minha curiosidade por todos. Por todos aqueles que não tiveram e que não terão a oportunidade de serem lembrados. Para onde foram, para onde irão?
(Valéria Sotão, 27/06/2011)
(Valéria Sotão, 27/06/2011)
