Eu passo por muitas portas e nunca bato. Não toco a campainha nem faço alarde. Passo por muitos lares e nunca fico: nunca me sinto à vontade. Em poucas vidas me prolonguei. Escolho meus amigos por seus corações quentes, aconchegantes. Pelas mentes inquietas, mas que sabem quando descansar. Fico na vida dos que ainda conseguem se indignar. Dos que conseguem tolerar e perdoar, aqueles que usam suas borrachas.
Não faço questão também de que permaneçam no córrego de minha trajetória. De que matenham contato. Não conseguiria administrar relações com tanta gente, apesar do tamanho de meu coração. Prefiro ter um bom tempo para poucos do que minutos mal vividos com vários.
É difícil achar um coração aquecido e olhos que brilham. Todos que convivem comigo por minha vontade têm, necessariamente, essas características. É que de gente egocêntrica sempre estive farta. Gente egocêntrica é aquela cujos olhos não brilham ao ver a beleza de uma cachoeira ou de uma criança sorrindo. Gente egocêntrica é incapaz de ficar radiante com qualquer coisa que não seja ela mesma. E quem tem esse poder de se encantar com as coisas do mundo acaba por involuntariamente encantar demasiado a mim! Seus sorrisos tornam-se meus sorrisos e suas almas passam a serem coloridas dentre tantas almas brancas, cinzas, sem vida...
Eu raramente faço questão de ficar, ou de que em meu coração fiquem. Se eu deixei minha porta aberta és bem-vindo em mim. Se bato com frequência na porta do seu lar é porque, por alguma razão, gostaria que me deixasse entrar e ficar. Sair e poder voltar. Não permanecer ali incessantemente, porque tenho muitos a visitar e outros a receber, mas gosto de poder retornar, como poderá retornar você sempre à minha vida. É uma vontade nascida do momento em que olhei em seus olhos e enxerguei sua alma. Nunca bato, raramente faço alarde. Mas se toquei sua campainha e vez ou outra ainda toco, ou se te deixo sempre vir, é meu íntimo querendo que flutuemos juntamente no fluido da vida. É meu lado mais honesto dizendo: 'vem, fica, vamos tomar um café'. (Valéria Sotão)

