quarta-feira, outubro 04, 2006

Segredos e Mentiras


Sinto-me como algum dos personagens dos filmes de Mike Leigh. Sou o tipo de pessoa que... Não, na verdade eu não sou um "tipo de pessoa". Assim estaria, eu mesma, rotulando-me. Eu, apenas eu (e não sei mais quem poderia ter características parecidas), gosto de resolver todos os conflitos entre mim e quem quer que seja, ou entre mim e qualquer coisa viva ou não, concreta ou não, na hora. Neste sentido sou imediatista.
Lembro-me que achei fantástico o desfecho de Secrets & Lies, do cineasta antes citado. Senti-me tão presente ali. As coisas precisam ser discutidas, não podem ser deixadas para depois. Não em questão de gostos, opiniões, não falo dessas bobagens. Mas de coisas mais profundas, de coisas que deixam marcas, de coisas que são sérias, sentimentais ou que tenham algo a ver com a integridade emocional daquela pessoa. E ainda, que tenham algo a ver com valores que a mesma prioriza, como honestidade e sinceridade. Alguns segredos, algumas mentiras... podem pesar muito sobre nossos próprios ombros quando revelados. Ou pior ainda, sobre os ombros de outros. Por isso eu tenho evitado guardar coisas dentro de mim (porém nunca fui uma boa mentirosa). Na verdade, sempre evitei, mas agora tenho consciência disso. Não escondo meu estado quando estou magoada. Não entendo quando alguém quer fugir de coisas que precisam ser ditas, resolvidas.
Palavras marcam muito. Não adianta: qualquer pessoa que confie na palavra do outro, ou seja, na sinceridade de outra pessoa, tende a absorver insultos, declarações de amor, ditos de amizade, promessas, ofensas... mesmo que sutis. Eu, ao menos, costumo fazer questão de deixar frases bem guardadas no coração, na mente. Tanto faz. Lembro-me de muitas coisas que amigos ou pessoas queridas e da família me dizem e também das que ouço umas dizendo às outras.
É fato que a linguagem falada é natural, espontânea, mal pensada, automática. Talvez por isso eu fale pouco, ou fale pouco sobre coisas que não devem ser ditas no calor do momento. Tudo deve ser pensado e medido, para que não nasça a partir daí uma rede de mentiras entrelaçadas, de expectativas ilusórias e de frases ditas de forma banal, sem valor algum. Porque é o que acontece. O filme de Leigh mostra isso perfeitamente. Algo que aconteceu há anos atrás, aparentemente sem importância, pode matar alguém que não tente resolver logo o problema, que "empurra com a barriga", que deixa as águas rolarem, sabendo que no fundo o psicológico tem um limite e que esse limite pode ser estourado a qualquer momento. É como uma cadeia contínua, a famosa bola de neve.
Não adianta deixar para depois o que sabemos que um dia terá que ser esclarecido, dito, compartilhado. Não adianta tentar esquecer o inesquecível. De nada vale guardar uma dor, um incômodo dentro de nós. Tudo precisa ser dito. Tudo. Antes que um sopro vire um furacão. Antes que uma formiga nos coma.

Nenhum comentário: